Vozes marginalizadas na Literatura Brasileira

|Resenha| 1 | Quarto de despejo – diário de uma favelada, autora Carolina Maria de Jesus.

“15 de julho de 1955: Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar”.

Essa é a primeira entrada do diário de Carolina Maria de Jesus, catadora de papel que viveu na rua A, barraco nº 9, em uma favela na beira do Rio Tietê, no bairro do Canindé. O jornalista Audálio Dantas foi quem descobriu os cerca de 20 cadernos, onde Carolina escrevia seu livro.

Designado para escrever uma matéria sobre a favela, Audálio a conheceu em meio a uma briga de vizinhas, em que Carolina afirmava que iria relatar tudo o que acontecia na favela em seu livro. Isso despertou a atenção do jornalista, que encontrou em meio àqueles cadernos o material de que precisava.  “Li, e logo vi: repórter algum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela”, contou Audálio no prefácio dessa edição. A primeira reportagem foi publicada em 1958, pela Folha da Noite, com reprodução de trechos do diário.

Não se trata de uma história de ficção, com enredo tradicional, mas de um autêntico relato da vida cotidiano dos moradores da favela do Canindé. Fome, miséria, preconceito, violência, desamparo e descaso político são alguns dos temas tratados nesse diário e que geralmente são destacados por quem lê e estuda a obra.

Gostaria de acrescentar mais duas temáticas a essa lista: a esperança e o amor aos filhos. Sim! Esperança, às vezes abalada pelas dificuldades da vida, mas que se renova a cada dia, numa persistência diária pela sobrevivência e pelo sonho de poder oferecer uma vida melhor aos filhos. O próprio objeto livro acaba personificando esse sentimento de esperança, pois Carolina o escreve com o intuito de publicá-lo e com o dinheiro sair da condição em que se encontrava.

 

A linguagem e estrutura do texto

O livro foi publicado em 1960 e Audálio foi o responsável pela edição dos diários. Muitas partes do texto original foram suprimidas, tendo em vista a grande repetição de ações e temas abordados. Mesmo assim, o leitor ainda se depara com várias passagens parecidas, como esta: “Despertei as 7 horas (…), fui buscar água”; a recorrente busca por água; as andanças pela cidade à procura de papel e outros objetos que ela possa vender para conseguir dinheiro; a compra de alimentos e a preparação das refeições para os filhos; as constantes brigas com os vizinhos; entre outros assuntos abordados, nos dão uma dimensão real do dia a dia.

E essa repetição, ao longo do texto, nos mostra – primeiramente no sentido racional – a luta diária para conseguir itens básicos de sobrevivência, e também – num segundo momento – desperta uma sensação de angústia.

Além disso, a edição feita por Audálio é fiel à linguagem da autora, que contraria regras gramaticais e ortográficas, mas que ressalta as marcas de oralidade. Porém, segundo o jornalista foi necessário corrigir algumas pontuações e grafias que poderiam levar a incompreensão de leitura. Manter a linguagem da autora foi uma decisão acertada, pois deu maior realismo à narrativa, mostrando a forma dela expressar o universo em que vivia.

Quem lê Quarto de Despejo também se depara com uma linguagem rica e poética. Carolina gostava muito de ler e ouvir as radionovelas, portanto, conhecia textos literários. Em vários fragmentos percebemos sua intenção clara de escrever literariamente.

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”.

Ela utiliza essa metáfora em vários momentos do texto. Ela sentia que a favela era como um quarto de despejo, onde se guarda aquilo que não se quer mais, aquilo que se quer esconder ou esquecer que existe.

Poderia falar mais coisas sobre o livro, mas o encanto é descobrir por si mesmo cada detalhe. Fica essa dica de leitura!

Autora Carina Marques

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